"Já na vitrine da livraria, identificou a capa com o título que procurava. Seguindo esta pista visual, você abriu caminho na loja, através da densa barreira dos Livros Que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras, olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não deve deixar-se impressionar, pois estão distribuídos por hectares e mais hectares os Livros Cuja Leitura É Dispensável, os Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos. Assim, após você ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria de Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Lhe Restam Para Viver Não São Tantos Assim. Com movimentos rápidos, você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros, dos Livros Demasiado Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço, dos Livros Idem Que Poderia Pedir Emprestados A Alguém, dos Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido. Esquivando-se de tais assaltos, você alcança as torres do fortim, onde ainda resistem os Livros Que Há Tempos Você Pretende Ler, os Livros Que Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado, os Livros Que Dizem Respeito A Algo Que O Ocupa Neste Momento, os Livros Que Deseja Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância, os Livros Que Gostaria De Separar Para Ler Neste Verão, os Livros Que Lhe Faltam Para Colocar Ao Lado De Outros Em Sua Estante, os Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada."

(Se um viajante numa noite de inverno - Ítalo Calvino)

Saudade infinita

Acho que todos já sabem ou imaginam que perdi recentemente uma grande parte da família, minha pequena cadelinha de raça poodle-estranho e cor preto-desbotado.
A dor que senti e ainda sinto é simplesmente milhões de vezes maior do que eu achei que seria. É algo que ninguém no mundo que não tenha passado por algo parecido poderia imaginar... é algo que eu não poderia imaginar.
Foram 15 anos de companheirismo infinito. 15 anos em que, todos os dias, quase sem exceção, me despedi dela antes de dormir e fiquei feliz com ela ao acordar. 15 anos em que, quando chorei, ela sempre esteve deitadinha ao meu lado na cama; quando sorri, sempre esteve tão contente quanto eu. 15 anos em que sempre quando eu chegava em casa, era recebida com abanos de rabo e lambidas infinitas, como se eu fosse a coisa mais importante do mundo pra ela.
Na última semana eu a vi demonstrar um carinho incomum, depois “se calar”, e depois sofrer intensamente até a morte. E sempre, em todos os momentos de minha vida, fui a favor da eutanásia animal, até mesmo de formigas e seres mais inexpressivos, mas o fato é que não tive a coragem necessária de fazer isso com ela. Foi como se eu quisesse loucamente gritar o mais alto possível e soubesse que era o que tinha que fazer, mas algo me impedisse de fazê-lo. Como se fosse tão simples quanto piscar os olhos, mas ao mesmo tempo tão irreal e impossível de se fazer quanto tirar a vida de uma pessoa sadia. Talvez agora que tudo acabou, isso seja o que mais me doa. Eu não consegui gritar.
Tudo aconteceu na quarta-feira. Hoje e só hoje senti que pude realmente compreender tudo o que aconteceu. E me sinto infinitamente menos desesperada do que então, mas também infinitamente mais deprimida. Hoje cheguei do trabalho e senti a saudade mais dolorosa de até então. Todos os dias em que chegava, me deitava no chão exausta pelo dia, e imediatamente ela corria pra perto do meu rosto e tentava me lamber, e eu a abraçava e a acarinhava freneticamente, aproveitando a sujeira em que se encontrava minha roupa e meu corpo. Todos os dias. Menos hoje. Menos em todos os próximos. E isso me entristeceu de tal forma que não pude evitar cair no choro novamente, bem quando acreditava que a ferida já estava cicatrizando.
Mais do que qualquer outro momento de minha vida, esse é de longe o mais triste. E sinto um certo desconforto com isso. Algumas pessoas devem pensar: “mas era só um cachorro...”, mas pra mim era muito mais do que isso. Era como um anjo que veio e passou 15 longos anos alegrando infinitamente a minha vida e que, súbita e inexplicavelmente, não é mais. Como se arrancassem à força um sorriso que habitava meu rosto há quinze anos. Como se uma parte importante de mim tivesse se perdido sem dar aviso.
Acho que as saudades serão eternas, e se isso é assim, não quero nem imaginar o que deve ser perder uma pessoa próxima.

Sentimentos ao longo de um relacionamento: uma questão biológica, psicológica ou seiláoquê!? Para mim, simplesmente humana.

Todo mundo que já namorou por pelo menos um ano sabe disso: sentimentos mudam durante um relacionamento.

Um certo amigo meu, biólogo, certa vez indignado porque sua namorada o deixara graças a diversos fatores relativos a esta mudança, me disse que as pessoas deveriam compreender que sofremos um fenômeno chamado ADAPTAÇÃO para tudo que acontece em nossa vida. - É uma questão biológica! - dizia ele. - Tudo que é novo nos causa euforia, excitação, ansiedade... Um emprego novo, uma mudança brusca e, porque não, um novo relacionamento. Mas tudo isso tende a diminuir com o passar do tempo e conforme você se adapta àquele novo estímulo, certo? Isso não quer dizer que você deixe de amar aquela pessoa ou tenha que deixá-la.
Relevei, porque me pareceu fazer muito sentido.

Uma outra certa amiga minha, psicóloga, outra certa vez me disse: - Este é o mau de alguns relacionamentos que acabam precocemente: as pessoas estão sempre em busca daquela sensação maluca da paquera, da conquista, enfim... do novo! Tais pessoas simplesmente não se dão conta do quanto é maravilhoso amar alguém, dia após dia, mês após mês, ano após ano, e compreender que mudanças acontecem, que altos e baixos são comuns, e que existem mil outras sensações e sentimentos que só o tempo é capaz de fazer nascer em nossos corações.
Relevei igualmente, porque me pareceu fazer tanto sentido quanto.

O fato é que, desde exatos quatro anos e sete meses atrás, tenho alguém muito mais do que especial na minha vida. É simplesmente impossível descrever tudo que senti durante todo esse tempo, mas sei, sem dúvida nenhuma, que o amo cada vez mais. E o mais incrível é perceber que, transcendendo os limites biológicos, psicológicos ou sejam lá quais forem, somos eternos apaixonados. E perceber que sou mais feliz hoje do que jamais imaginei ser em toda a minha vida, graças a esta pessoa, que sempre esteve comigo.

Assim como a raposa para o pequeno príncipe, ele é único no mundo para mim, diferente de outras 6 bilhões de pessoas teoricamente iguais, porque me cativou... e eu o cativei.
"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" - disse a raposa ao príncipe.

Mistérios da vida

De volta aqui no blog, depois de tanto tempo, pra falar de coisas que sabemos sem compreender. Mais especificamente, uma dessas coisas, a morte.
Perder um ente querido é sempre uma dor. Saber que essas coisas acontecem e sempre vão acontecer é simples, mas compreendê-las me parece extremamente difícil quando elas acontecem com você.
Recentemente, para quem não sabe, perdi a minha avó materna. Uma pessoa não tão próxima quanto algumas avós são, mas ainda assim, muito querida e especial. Já faz uma semana mas, toda noite antes de dormir, as lembranças insistem em se fazerem presentes como se, de propósito, quisessem me fazer sofrer ainda mais.
Em um momento, ali estava ela, serena como sempre, sorrindo numa alegria imensa por ver filhas e netos todos tão próximos. Aquele sorriso era como se nos dissesse tudo sem precisar de palavras. Com certeza amava imensamente aquela família cuja existência era em grande parte obra sua. Era presença e agora, subitamente, é ausência.
Desconcertantemente, não é a simples ausência que dói mais, mas sim saber que, na realidade, é uma ausência permanente. É saber que nunca mais estará ali, naquelas entediantes festas de família, com seu terno sorriso, para perguntar se a cobertura do doce era pipoca. Saber que nunca mais o telefone vai tocar com ela perguntando que dia da semana era. Saber algo tão óbvio mas ao mesmo tempo tão doloroso: ela se foi, não volta mais. As festas de família serão, daqui pra frente, sempre envoltas de saudade. Meu avô será sempre um, e não dois.
Trazemos conosco, cada um de nós, filhos e netos, pequenos e belos pedacinhos dela que sempre serão lembrados.

Diferente divertido

As crianças brincavam alegremente no gira-gira do parque, e o Gil (nome fictício), aproveitando-se daquele belo momento, posicionou-se estrategicamente bem de frente para elas. Cada cabeça que passava, levava um tapa.
A monitora então apressou-se a gritar: "Pááára, Gil!", e então, todas as crianças, em protesto, repetiram frenetica e ritimadamente: "Pára, Gil! Pára, Gil! Pára, Gil!"
Assistindo a cena, eu somente ri.
Durante a tarde, deixei a última sala (a do Gil) com a professora generalista, que logo os dispôs em fila para a merenda. Apressadamente, ela os levou, cantarolando qualquer música para distraí-los, até o refeitório. O Gil, como de costume, correu feito um louco em direção ao parque.
Também como de costume, peguei-o pelo braço e calmamente expliquei: "Agora não é hora do parque, é hora de comer".
"Parque! Parque! Parque!", ele gritava tristemente enquanto eu o arrastava para junto de sua turma.
Conformando-se, ele retomou seu lugar na fila.
Segui meu caminho e já estava quase na porta da saída, mas minha atenção foi requisitada novamente pela voz da professora: "Chama a Silvia!". Silvia era a secretária. Quando olhei pra trás, lá estava o Gil montado numa motoquinha rosa, fugindo como no "Fantástico Mundo de Bob" pelo corredor.

VIDA Vegetariana - Atreva-se a ler até o final.

Volto ao blog, caros poucos leitores, para falar da opção alimentar que hoje sigo: ovolactovegetariana, com fortes tendências fortes a mudar para o veganismo. (Para você que não compreende as diferenças, há um comentário no final do post. Por favor diija-se a ele.)

É dificílimo falar disso, pois a probabilidade de alguém alegar que você é arrogante, chato e que está querendo convencer o mundo a seguí-lo é imensa. Que fique claro aqui: o objetivo desse post, muito aquém de tentar convencer alguém, é um tanto quanto funcionalista: esclarecer algumas questões que sempre me são feitas, mas que nunca tenho paciência de responder prontamente. Aí vão as FAQs e seus famosos esteriótipos. Deixo claro que as respostas foram formuladas a partir do meu conhecimento prévio sobre o assunto. A quem necessite fontes confiáveis, só pedir.

- A QUESTÃO DA VÓ/TIA OU ALGO DO TIPO: Mas minha fiiiiiilha, o que é que você come? Vai ficar tão mirradinha, doente... já pensou se te dá uma anemia?

RESPOSTA: É comprovado cientificamente que TODOS os nutrientes necessários à nossa saúde podem ser conseguidos em uma dieta (balanceada e regrada - lembremos... não saiam por aí deixando de comer coisas sem informação) vegan. A única exceção à regra é a vitamina B12, que por sua vez é facilmente encontrada em alimentos industrializados enriquecidos (exemplo: sucrilhos, barras de cereais e similares).FATO: A única necessidade de comer carne vem do egoísmo humano em saciar suas injustas vontades de paladar.RELATO: A incidência de resfriados, gripes e infecções (especialmente de garganta) em minha pessoa passaram de uma média de 3 vezes ao ano para 0 após a opção de não comer carne. Coincidência? Talvez.


- A QUESTÃO DO COLEGUINHA INFERNAL: Vai dizer que você não sente falta do gostinho da carne?

RESPOSTA: De jeito algum. Percebo que a restrição de alguns onívoros quanto à alimentação é muito maior que a dos vegetarianos. É questão de hábito alimentar: não demora muito pra você perceber que produtos vegetais são muito mais variados e deliciosos (sem mencionar o "saudáveis") do que você pensa.


- A QUESTÃO DO COLEGUINHA AINDA MAIS INFERNAL: Os vegetais também são seres vivos, e você os arranca impunemente da terra e os come... pobrezinhos...

RESPOSTA: Os vegetais não possuem sistema nervoso (portanto não sentem dor), nem tampouco área cerebral específica para sistema emocional (portanto não se sentem deprimidos, injustiçados, não choram e não amam - e antes que alguém me diga que animais não amam, vide seu cachorro.). Tudo isso ao contrário dos animais.


- A QUESTÃO DO POBRE DESINFORMADO: Mas afinal, o que tem de mau em comer produtos animais? Eles morrem sem dor.

RESPOSTA: Ok, amigo... enganaram você. Animais são mal-tratados, encarcerados, torturados, separados de seus filhotes e finalmente mortos pra que você possa comer alegremente seu churrasco no final de semana. Vivem em condições ínfimas, aglomeram-se. São mortos por uma simples doença passageira (mas que não pode se disseminar, de modo algum). Frangos são privados de seus bicos pra que não se machuquem. Galinhas morrem por terem vários ovos entalados, pois recebem hormônios demais. Falando em hormônios, alguém já viu como um chester (que nada mais é do que um frango entupido de hormônios) se locomove? Pois bem, ele não se locomove. Seu peito se torna grande demais pra isso. São só alguns exemplos e... se nada disso te choca, vá em frente, coma carne e te respeitarei.


- A QUESTÃO DO INDIFERENTE: Mas se todo mundo come, que diferença vai fazer?

RESPOSTA: Que diferença vai fazer jogar só um pouco lixo na rua? Que diferença vai fazer arrancar só umas árvores? Que diferença vai fazer matar só um bichinho exótico por diversão? E por aí vai...

- A QUESTÃO DO REVOLTADO: Ser vegetariano é só modinha. E vocês ainda se sentem superiores!

RESPOSTA: Moda é comer churrasco todo final de semana, McDonald´s e ovo frito. Não? E, além do mais... qual o problema da moda se quem a segue é consciente e informado?
O que te faz superior (eticamente), muito além do que você come, são suas ações pra com as PESSOAS. E essa é uma das razões pela qual eu deixo claro que respeito todas as formas de alimentação.


*Nota de caráter explicativo:
Flexivegetariano: Nome recém-nascido. É quase um flex-power. Diz que é vegetariano, mas come peixe e até se rende à carne de vez em quando. (Em minha singela opinião, vegetariano o escambau).Ovolactovegetariano: Não come carne, mas ingere leite, ovos e derivados.Vegan: Não ingere ou utiliza produto algum de origem animal.Vegetariano: Engloba todos os anteriores.

Repostando - Educador?

Encontrei em meu antigo blog esse texto, datado de 27 de janeiro de 2006, que retomou alguns pensamentos importantes. Resolvi postá-lo novamente, dessa vez aqui, uma vez que dia após dia volto a me deparar com essa grande questão: ser educador.

"Cá estou eu, mais uma vez, de volta de viagem, para falar da dificuldade que é lidar com seres humanos. Percebi que, desde que entrei na FEF, muita, mas muuuuita coisa mudou na minha vida. Graças a Deus, amadureci tanto em relação a algumas coisas... algumas coisas que hoje considero primordiais na vida de qualquer ser humano. Nesses 3 anos de faculdade, percebi que trabalhar com pessoas, especialmente crianças, era algo muito além do que eu imaginava. É uma tarefa muito mais difícil, muito mais delicada que qualquer outra. Lidando com seres humanos, estamos lidando com uma complexidade absurda! Quando penso em padronizar uma aula pra 100 pessoas, completamente diferentes (não só fisicamente, mas com diferentes interesses, diferentes pensamentos, princípios e problemas), quase fico louca. Mas enfim, este não é bem o ponto ao qual eu queria chegar. O fato é que, além de tudo isso, acredito que o fator que mais influi nessa tal complexidade é uma coisa que nós humanos temos a todo momento, chamada sentimento. Acho que já mencionei antes o quanto sou fascinada pela mente humana. Já parou pra pensar no que está por trás dos traumas? No porquê de uma pessoa ter tanto medo de uma coisa aparentemente inofensiva? Isso não é intrigante demais? E já parou pra pensar porque é que algumas pessoas são extremamente frias, enquanto em outras (dessas quais eu sou um exemplo claro) os mais diversos sentimentos vêm à tona com o que poderia ser uma simples palavra? É dessa complexidade e diversidade que falo. Deus nos fez de uma maneira sábia demais: cada ser é único, e é por isso, e unicamente por isso, que nossa raça sobrevive até hoje. Pense em quantas pessoas são necessárias na sua vida para que você passe um dia bem! E não estou falando simplesmente de necessidades afetivas, mas de todas elas! O seu alimento, sua casa, seu emprego: tudo dependeu de outras mil pessoas para estar ali. A questão é: seriamos nós, então, seres incompletos? É claro que sim. Admita. Você não é NADA sem as pessoas ao seu redor. O difícil é fazer com que toda a população mundial compreenda este fato. Somos egoístas demais, preocupados demais com nossos próprios problemas para assumir: somos incompletos! Talvez, se todo mundo pudesse assumir, seria mais fácil conviver em sociedade, e este é o ponto no qual eu quero chegar: Compreenda a outra pessoa como diferente de você, e aprenda a ver a beleza que existe nisso. Compreenda que, por mais engraçada que seja a piada, ninguém gosta de ser inferiorizado por ser diferente. Pense no que você sentiria se estivesse no lugar do outro. Pare e reflita: você é incompleto! Então, entregue-se às outras pessoas. Agora, pare e reflita em um segundo nível: A outra pessoa também é incompleta, então, sempre que puder, ajude-a. Quando penso nisso, uma outra coisa me surge em mente: enquanto em função de educadora, se eu conseguir, nem que seja parcialmente, fazer com que crianças com que eu trabalharei compreendam isso, me sentirei totalmente realizada. Percebo que esta é uma tarefa tão difícil que já não sei se sou hábil para ela. Incompleta. Talvez uma outra pessoa seja melhor que eu para isso. Foi exatamente todo esse raciocínio que me fez optar: primeira opção, bacharelado."